IA chega ao pequeno negócio pelo marketing e começa a avançar para a gestão

Pesquisas do Cetic.br e do Sebrae mostram o avanço da tecnologia nas pequenas empresas; GestãoPro aponta os próximos passos
A inteligência artificial já faz parte da rotina de boa parte dos pequenos negócios brasileiros, mas ainda ocupa um espaço restrito. Ela aparece na legenda do post, na resposta ao cliente pelo aplicativo de mensagens e na campanha de divulgação. O fechamento do caixa, a previsão de compras e a leitura dos números do mês, em geral, continuam fora do alcance da tecnologia. Para a GestãoPro, empresa brasileira de sistemas de gestão empresarial (ERP) fundada em 2009 em Manduri (SP), é nessa segunda frente que a IA deve ganhar espaço nos próximos anos, agora que deixou de ser exclusividade das grandes corporações e passou a vir embutida nas ferramentas que as empresas menores já usam.
Quantas pequenas empresas já usam inteligência artificial?
A adoção avançou de forma rápida entre 2024 e 2025. A 16ª edição da pesquisa TIC Empresas, do Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), ligado ao NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR), mostra que a proporção de empresas brasileiras que usam IA passou de 13% para 17% no período. Entre as pequenas, com 10 a 49 funcionários, o índice saiu de 10% para 15%, e entre as grandes, com mais de 250, de 38% para 50%. O levantamento ouviu 4.174 empresas entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026.
Quando a pergunta é feita diretamente ao empreendedor, o número sobe. A pesquisa Transformação Digital nos Pequenos Negócios 2026, realizada pelo Sebrae em parceria com o Meta Instituto de Pesquisa, ouviu 7.182 entrevistados entre MEIs (microempreendedores individuais), microempresas e empresas de pequeno porte. Segundo o levantamento, 52% deles usaram IA nas atividades do negócio nas duas semanas anteriores à entrevista, contra 21% registrados nos Estados Unidos por pesquisa equivalente do U.S. Census Bureau. Além disso, 60% pretendem adotar ou ampliar o uso no próximo semestre. As duas medições têm recortes diferentes: a do Cetic.br considera o uso pela empresa com dez ou mais funcionários, e a do Sebrae, o uso pelo empreendedor no dia a dia.
Para que os pequenos negócios usam a IA hoje?
A finalidade muda conforme o porte. Pesquisa do Sebrae com o FGV IBRE (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), feita com cerca de 5 mil empresas e divulgada em dezembro de 2025, mostra que 59% das micro e pequenas empresas aplicam a tecnologia em marketing e divulgação, com a comunicação em segundo lugar. A análise de dados aparece em terceiro, citada por 30% delas. Nas médias e grandes empresas, o quadro se inverte, e a análise de dados lidera, com 67%. Entre os benefícios percebidos, as micro e pequenas destacam a economia de tempo (34%).
O que muda quando a IA chega à gestão?
A IA aplicada à gestão tende a começar por tarefas repetitivas que consomem horas da equipe, como conciliação de dados, emissão de relatórios e organização financeira. Na sequência vêm usos mais analíticos, com sistemas que identificam padrões de consumo, preveem demanda e sinalizam riscos. A GestãoPro já aplica a tecnologia nos próprios serviços, entre eles um módulo web com IA que gera relatórios gerenciais a partir do histórico de cada empresa.
O caminho de entrada costuma ser o software pronto. Segundo o Cetic.br, 80% das empresas que usam IA adquiriram sistemas prontos para uso. O coordenador do estudo, Leonardo Melo Lins, observa que as soluções digitais tradicionais já podem trazer aplicações de IA, sobretudo para simplificar processos administrativos. Para ele, o avanço reflete mais uma adaptação dos processos do que uma mudança estrutural na forma como as empresas operam.
“A inteligência artificial não substitui a gestão, mas amplia a capacidade de quem toma decisões. O dono do negócio continua decidindo. O que muda é a quantidade de informação organizada que ele tem em mãos na hora de decidir”, afirma Edson Souza, diretor da GestãoPro.
A IA vai reduzir as equipes das pequenas empresas?
A maior parte dos pequenos negócios que adotaram IA manteve o tamanho da equipe. Segundo o Sebrae, 90% dos que usam a tecnologia não alteraram o número de funcionários nos últimos seis meses por causa dela, 5% reduziram e 3% contrataram mais. O uso mais comum foi aprimorar tarefas que os colaboradores já faziam (28%), seguido da criação de novas funções (19%). Em contrapartida, 46% precisaram desenvolver novos fluxos de trabalho para incorporar as ferramentas. Na avaliação da GestãoPro, o principal benefício da IA para as empresas nos próximos anos será liberar o tempo das equipes para atividades mais estratégicas.
Por onde começar a usar IA na gestão do negócio
A dúvida sobre o primeiro passo é comum. No levantamento do Sebrae com o FGV IBRE, “não sei como aplicar no meu negócio” foi a dificuldade mais citada pelos MEIs (23%). Entre as micro e pequenas empresas, 30% disseram não ter nenhuma dificuldade. Os pesquisadores associam esse resultado, em parte, a um cuidado menor com dados sigilosos de clientes, ponto que envolve a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados).
“A adoção tende a ser gradual. Começa pelos processos internos e avança para áreas mais complexas conforme a empresa ganha familiaridade com a tecnologia e confiança nos próprios dados”, diz Souza.
Na prática, alguns cuidados ajudam a dar esse passo com segurança. Um deles é escolher uma tarefa repetitiva e fácil de medir, como a conciliação bancária ou o relatório semanal de vendas. Antes de automatizar, vale revisar o cadastro de clientes, produtos e fornecedores, porque a IA trabalha com os dados que recebe. Também ajuda definir quem na equipe vai acompanhar e conferir os resultados nas primeiras semanas, além de verificar como a ferramenta armazena e trata os dados de clientes, em conformidade com a LGPD. A ampliação para outras áreas pode vir depois, quando o ganho na primeira estiver medido.
Para a GestãoPro, os números das pesquisas indicam que a pergunta do pequeno empresário está mudando. Depois de testar a IA para divulgar o negócio, ele passa a querer saber como a tecnologia pode ajudar a fechar o mês com menos retrabalho e mais clareza sobre caixa, estoque e vendas. Na avaliação da empresa, o resultado dessa próxima etapa vai depender de dados bem organizados e de uma equipe preparada para conferir o que a ferramenta entrega.



