sexta-feira, 18 de setembro
Entretenimento

Ana Hikari mergulha no universo dos criadores para viver Duda em “Emergência 53”

Atriz conversou com profissionais do mercado digital para construir a personagem sem estereótipos; preparação revela como a criação de conteúdo se tornou uma atividade cada vez mais estruturada


Antes de interpretar Duda em “Emergência 53”, série original do Globoplay, Ana Hikari percebeu que precisaria ultrapassar as ideias prontas que ainda cercam a produção de conteúdo adulto na internet. A atriz procurou mulheres que trabalham no setor para entender suas motivações, rotinas e relações com os assinantes, e descobriu um universo mais complexo do que imaginava.


Na trama, Duda é mecânica e motorista de ambulância, mas também produz conteúdo adulto para ajudar a pagar uma dívida familiar. A atividade não aparece apenas como um elemento provocativo do roteiro: integra os conflitos financeiros e emocionais da personagem.


Em entrevista ao UOL, Ana contou que procurou profissionais da área porque não queria construir Duda a partir de julgamentos ou estereótipos. Durante a pesquisa, conheceu diferentes modalidades de atendimento, níveis de interação com assinantes e formatos de produção.


“Descobri que não sabia absolutamente nada sobre esse universo”, afirmou a atriz. Parte do que ouviu nas conversas acabou incorporada à dramaturgia, especialmente a relação direta entre as criadoras e seus clientes.


A pesquisa mostrou que o trabalho não se resume à publicação de fotografias ou vídeos. Há produção, planejamento, definição de formatos, atendimento individualizado e construção de uma comunidade disposta a pagar pelo acesso a conteúdos exclusivos.


Uma personagem construída longe dos estereótipos
O principal cuidado de Ana Hikari foi compreender o que levou Duda a entrar nesse mercado. Na série, a escolha está relacionada à necessidade financeira e ao peso de uma dívida familiar. Essa motivação permitiu que a personagem fosse apresentada para além da sexualização.


A preocupação acompanha um debate mais amplo sobre a maneira como mulheres que produzem conteúdo adulto são retratadas. Embora a atividade tenha ganhado visibilidade e movimentado plataformas digitais, suas profissionais ainda costumam ser reduzidas ao conteúdo que comercializam, enquanto aspectos como autonomia, planejamento financeiro, segurança e gestão da própria imagem permanecem fora da discussão.


Ao conversar com criadoras, Ana identificou diferentes relações com o trabalho. Algumas produzem conteúdos mais diretos, enquanto outras investem em propostas artísticas ou conceituais. Também existem formatos distintos de interação, que podem envolver fotografias, vídeos, mensagens privadas e atendimentos personalizados.


Essa variedade ajudou a atriz a construir uma personagem com contradições, escolhas e responsabilidades próprias, evitando uma representação limitada à profissão exercida por ela.


Monetização direta mudou a relação com a audiência


A preparação para “Emergência 53” também chama atenção para uma transformação que ocorre fora da ficção. A produção de conteúdo deixou de depender exclusivamente de publicidade, campanhas com marcas ou contratos intermediados por agências.


Plataformas de monetização, como a brasileira Privacy, possibilitaram que criadores estabelecessem uma relação comercial direta com sua audiência. Nesse modelo, seguidores podem pagar por assinaturas, conteúdos exclusivos e diferentes formas de interação.


A mudança deu aos profissionais maior controle sobre o que produzem, quanto cobram e como se relacionam com o público. Ao mesmo tempo, trouxe novas responsabilidades: manter frequência, administrar assinantes, estabelecer limites, proteger dados pessoais e definir estratégias para tornar a atividade sustentável.


Esse movimento integra a chamada economia dos criadores. Estimativa da Goldman Sachs, repercutida pelo Sebrae, aponta que o mercado global pode alcançar US$ 250 bilhões calculados no período analisado.


No Brasil, a profissionalização do setor também avançou no campo jurídico. Sancionada em janeiro de 2026, a Lei nº 15.325 passou a disciplinar o exercício da profissão de multimídia, categoria ampla que reúne atividades de criação, produção, edição, planejamento e distribuição de conteúdos digitais.


A legislação não trata especificamente da produção de conteúdo adulto, mas integra um processo mais abrangente de reconhecimento das novas ocupações que surgiram com as plataformas digitais.


Entre autonomia, necessidade e julgamento
Duda reúne duas atividades ainda associadas a fortes estereótipos de gênero. Além de produzir conteúdo adulto, ela trabalha como mecânica e conduz uma ambulância. Para interpretar essa parte da personagem, Ana Hikari também precisou obter habilitação na categoria D, aprender noções de mecânica e participar de treinamentos relacionados à rotina dos atendimentos de emergência.


A construção da personagem, portanto, atravessa diferentes ambientes tradicionalmente marcados por julgamentos sobre o que uma mulher pode ou deve fazer.


Ao pesquisar diretamente a realidade das profissionais, a atriz encontrou uma atividade formada por experiências diversas. Há quem ingresse no setor por necessidade financeira, quem busque autonomia e quem transforme a produção digital em sua principal fonte de renda.


Mais do que oferecer respostas definitivas sobre esse universo, Duda evidencia como as transformações do mercado digital chegaram à dramaturgia. Em vez de recorrer a uma representação superficial, “Emergência 53” usa a trajetória da personagem para abordar trabalho, dinheiro, exposição, culpa e sobrevivência, temas que ajudam a explicar por que a economia dos criadores já não pode ser observada apenas pela lente do entretenimento.