terça-feira, 15 de setembro
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Marco Orsini e Natasha Geisel alertam sobre diferenças comportamentais e autismo

Marco Orsini e Natasha Geisel alertam sobre diferenças comportamentais e autismo.

Médicos defendem avaliação clínica rigorosa, atenção à história do desenvolvimento e cautela diante da medicalização excessiva da infância

Ser diferente não significa necessariamente ser divergente, assim como apresentar características sociais incomuns ou determinados traços de personalidade não é, por si só, indicativo de autismo. O alerta é feito pelo neurologista Marco Orsini, coordenador do Centro de Estudos Niterói D’Or, e pela médica Natasha Geisel, que defendem uma avaliação clínica criteriosa antes de associar automaticamente comportamentos fora do padrão ao Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Para Orsini, existe atualmente uma tendência de estabelecer, de maneira desordenada, uma espécie de linha da normalidade social. “As pessoas querem traçar de forma anárquica e desordenada uma espécie de linha da normalidade social. Se você está fora dessa, indubitavelmente, ganhará um lacre de diferente. Esse é o perigo. Investimentos, medicamentos, preocupações e problemas emocionais”, afirma.

O neurologista destaca que pessoas funcionais e produtivas também precisam aprender a compreender suas próprias dificuldades e desenvolver estratégias para lidar com elas. “Como sempre converso com os meus pacientes: se vocês são funcionais em suas atividades e produtivos, aprendam a desenhar os problemas e criar meios internos de melhorar. Essa é a primeira dica”, orienta.

Segundo os especialistas, a diversidade humana precisa ser considerada antes que características individuais sejam interpretadas como sinais de uma condição clínica. Orsini cita como exemplo uma pessoa com estilo ou comportamento considerado incomum. “Aquela suposta menina que se veste de preto e lê mangá é esquisita? Não. É uma opção. O jovem que pouco fala e não interage como gostariam é estranho? Não necessariamente. Pode ser da natureza dele”, exemplifica.

Para os médicos, diferença e divergência não são sinônimos. “Diferente” descreve uma característica que se afasta do padrão mais comum. Já “divergente” envolve uma trajetória, posição ou comportamento que se distancia de uma norma ou direção predominante. Na avaliação clínica, portanto, uma personalidade reservada, uma forma de interação social menos comum ou escolhas individuais não devem ser confundidas automaticamente com sinais de transtorno.

O autismo, ressalta Orsini, é um diagnóstico clínico e não simplesmente uma maneira diferente de ser. A identificação do TEA envolve características persistentes relacionadas à comunicação e à interação social, associadas a padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Esses sinais devem estar relacionados ao neurodesenvolvimento e apresentar repercussão funcional clinicamente relevante.

Isso não significa minimizar apresentações mais sutis do transtorno. Algumas pessoas, especialmente adultos, podem ter passado anos sem diagnóstico porque determinadas características foram compensadas ou interpretadas apenas como timidez, excentricidade, traços de personalidade ou dificuldade de adaptação. Por isso, os especialistas defendem equilíbrio entre reconhecer o transtorno e evitar associações precipitadas.

“Ser diferente não é ser autista; ser socialmente divergente também não é, por si só, um diagnóstico de TEA. O diagnóstico de autismo exige critérios clínicos, história do desenvolvimento e repercussão funcional, além de, muitas vezes, a própria experiência e expertise médica em reconhecer e associar características e queixas aos critérios do DSM, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais”, afirma Orsini.

A discussão ganha ainda mais importância quando envolve crianças. Natasha chama atenção para o risco de transformar comportamentos próprios do desenvolvimento infantil em doenças ou transtornos que demandem intervenção médica. Crianças da mesma faixa etária podem apresentar diferenças na maneira de receber e interpretar estímulos sensoriais, linguísticos, proprioceptivos e cinestésicos, além de ritmos distintos para alcançar determinados marcos do desenvolvimento.

Esses marcos devem ser acompanhados pelo pediatra dentro dos intervalos esperados para cada fase, com avaliação periódica e criteriosa. Para a médica, é importante diferenciar variação normal, diferença, dificuldade, transtorno clínico e necessidade de tratamento. Uma criança pode atravessar períodos de irritabilidade, timidez, dificuldade de adaptação ou preferência por determinadas brincadeiras sem que isso represente necessariamente um transtorno.

Nesse contexto, os especialistas também alertam para a medicalização excessiva da infância. Antes de transformar um comportamento em diagnóstico ou indicar medicamentos, é necessário compreender a rotina da criança, seus vínculos, oportunidades de brincar, sono, alimentação, socialização e contexto familiar.

“Precisamos combater a medicalização excessiva da infância sem negar os transtornos reais. Nem toda diferença é doença, nem todo comportamento difícil precisa de diagnóstico ou medicamento”, defende Orsini.

Natasha reforça que aspectos básicos da vida cotidiana fazem parte da análise do desenvolvimento. Movimento, brincadeira, sono adequado, vínculos afetivos, limites, convivência e pertencimento podem influenciar diretamente o comportamento infantil.

“Antes de medicar uma criança, precisamos perguntar se estamos oferecendo a ela os meios necessários para que tenha uma rotina minimamente estruturada, contemplando movimento, brincadeira, alimentação e sono adequados, vínculos afetivos e verdadeira socialização. Nem toda diferença e queixa precisa ser ‘remediada’, e muitas vezes precisamos pesar na balança a relação entre benefícios e possíveis efeitos adversos de uma medicação”, afirma Natasha Geisel.

A preocupação dos médicos não é negar a existência dos transtornos do neurodesenvolvimento nem dificultar o acesso ao diagnóstico. O objetivo é evitar que o conceito de autismo seja ampliado de maneira indiscriminada, fazendo com que toda característica que se distancia do padrão seja interpretada como sinal de uma condição clínica.

Ao mesmo tempo, o rigor na avaliação também protege quem realmente precisa de diagnóstico e acompanhamento. Uma investigação superficial pode resultar tanto em diagnósticos excessivos quanto na ausência de identificação de pessoas que apresentam o transtorno. Por isso, devem ser considerados a história do desenvolvimento, o conjunto de características, a persistência dos sinais e seus impactos sobre a vida cotidiana.

Para Orsini, conhecer a criança antes de tentar classificá-la é parte essencial desse processo. Observar seus interesses, estabelecer vínculos, compreender suas dificuldades e reconhecer suas potencialidades contribui para uma avaliação mais responsável e menos baseada em comportamentos isolados.

“Antes de procurar um diagnóstico para cada diferença, precisamos entrelaçar laços, estar presentes e conhecer nossos filhos. Crianças precisam, antes de tudo, de vínculo, movimento, brincadeira, limites, afeto e pertencimento”, conclui.

A reflexão proposta por Marco Orsini e Natasha Geisel evidencia um dos desafios contemporâneos relacionados ao autismo: encontrar equilíbrio entre reconhecer condições reais e respeitar a diversidade humana. Para os médicos, compreender essa diferença é fundamental para que o diagnóstico seja instrumento de cuidado e não uma explicação automática para todo comportamento que se distancia do padrão.